A Revelação do Evangelho na Carta aos Romanos
Ricardo de Paula Meneghelli

SOBRE A CARTA

Autor e Data

O autor desta carta é Paulo, o apóstolo. Assim como as outras cartas dele, esta foi ditada a um auxiliar que a escreveu, neste caso Tércio ( Rm1:1 ; 16:22 ). Comparando Romanos e Atos, vemos que ele escreveu esta epístola da segunda vez que esteve em Corinto, importante cidade da região Acaia (Grécia), ao final de sua terceira viagem apostólica, por volta de 57 DC, após passar mais de 3 anos em Éfeso e quando estava próximo de regressar a Jerusalém com as ofertas das igrejas gregas (At 19:21 24:17 Rm15:25-28). Vários colaboradores seus como Áquila e Priscila , que o ajudaram em Corinto e Éfeso, já estavam lá.

Paulo está em Corinto, na casa de Gaio, seu anfitrião, que foi batizado por ele (Rn13:23). Erasto, que envia saudações aos romanos, é o procurador (ou tesoureiro) da cidade e a portadora da carta é a irmã Febe, que servia na igreja em Cencréia , um subúrbio de Corinto (Rm 16:1, 1Co1:14 2Tm4:20).

Os Destinatários da Carta

A carta é destinada originalmente a todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados santos (Rm1:7). Ou seja, ele escreve a Igreja em Roma, tanto os de origem judaica como gentílica. Muitas passagens se aplicam aos gentios (Rm 1:5-6;13 11:13 15:15-16) e outras aos judeus (Rm 2:17-27) e tem o objetivo de mostrar que todos estão debaixo do pecado e são justificados pela fé , sendo feitos um só corpo em Cristo.

Embora o idioma falado em Roma fosse o latim, a epístola foi escrita em grego. Isto se deve aos seguintes motivos:

  • O grego era entendido em Roma e também muito falado, pois fazia parte da educação local.
  • Os judeus que estavam lá tinham traduções gregas das Escrituras e não latinas.
  • O próprio Paulo estava mais familiarizado com o grego do que com o latim, pois era nascido na Cilícia, onde se falava grego.
  • Esta epístola foi escrita para ser lida por outras igrejas além da de Roma, como era de costume (ver Col 4:16 ) e a língua grega era a mais falada e compreendida em toda parte.

Romanos contém grandes revelações sobre a salvação e a vida cristã. Por isso, o Espírito Santo, que inspirou Paulo, decidiu também incluí-la no canon das Sagradas Escrituras, fazendo com que chegasse até nossos dias. Por isso, cremos que esta carta foi escrita para todos os cristãos de todas as épocas e deve ser considerada como uma revelação de Deus sobre a aplicação do evangelho de Seu Filho.

A Cidade de Roma

Roma era uma grande cidade, capital do Império Romano que dominava praticamente todo o mundo antigo. Nesta época a cidade contava com mais de 1 milhão de habitantes. Os ricos moravam em casas elegantes e os pobres, que eram a grande maioria, espalhados em pequenos cortiços, que contrastavam com belas casas comerciais, jardins e edifícios monumentais.

Em conseqüência das guerras de expansão imperial também havia muitos escravos em Roma. Eram muito explorados pelos seus donos e trabalhavam na agricultura, artesanato e produção de bens para a sociedade. Um escravo podia comprar sua liberdade ou ser liberto pelo próprio dono. A escravidão gerou muito desemprego entre os romanos. Muitos trabalhadores rurais perderam seu trabalho para escravos e foram para a cidade, aumentando ainda mais a crise social.

Havia também naquela época, muitos judeus em Roma. Quando Pompeu o Grande tomou a Judéia em 63AC, ele mandou grande número de prisioneiros judeus para Roma, para serem vendidos como escravos. Muito depois, por volta de 51DC, sob o reinado de Cláudio, muitos foram expulsos por causa de desordens possivelmente provocadas pela pregação do evangelho . Entre eles estavam Áquila e Priscila (At 18:1-2).

As Origens da Igreja em Roma

É provável que a igreja em Roma tenha surgido como uma conseqüência quase imediata do que aconteceu em Jerusalém no dia de Pentecostes, conforme relata o livro de Atos dos Apóstolos no capítulo dois. Na ocasião da descida do Espírito Santo sobre os discípulos, havia judeus de diversas partes do mundo, que tinham ido para Jerusalém celebrar o Pentecostes (30DC). Entre eles cita-se "forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos" (At2:10). Naquele dia houve uma tremenda proclamação do Evangelho (At2:22-36) e uma intensa obra espiritual que resultaram no batismo de 3.000 pessoas convertidas a Cristo. Entre eles estavam, certamente, judeus de Roma.

Quando alguns destes judeus convertidos e batizados em Cristo voltaram para Roma, levaram para lá as boas novas da chegada do reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo e formaram a igreja na cidade. É possível que Andrômico e Júnias (Rm16:7) estivessem entre eles, e tenham contribuído para o estabelecimento da igreja romana.

O efeito da expulsão dos judeus de Roma , incluindo os que tinham se tornado cristãos, durou pouco. Não muito tempo depois, as comunidades cristãs e judaicas começaram a surgir novamente. Roma era uma cidade de grande circulação. Muitas pessoas iam para lá por causa do comércio, da política e até da escravatura e acabavam se estabelecendo na cidade. Era como se dizia na época: "todos os caminhos levam a Roma". Com o avanço do evangelho pelo mundo todo, muitos cristãos vindos de outras regiões, quando chegavam lá se agregavam à igreja, que se fortaleceram tanto que sua fé era conhecida em todo o mundo (Rm1:8). Em Romanos 16 Paulo envia saudações a amigos e companheiros como Andrômicus e Júnias, Áquila e Priscila que, com outros, podem ter sido colaboradores apostólicos para o estabelecimento da igreja nesta cidade.

Até a ocasião em que foi escrita esta carta não há indícios da presença de nenhum apóstolo em Roma. A tradição de que Pedro tenha sido o fundador da igreja em Roma, não faz sentido pois não há indícios bíblicos ou históricos de sua presença lá. Ele não é mencionado em nenhum momento na carta, nem lhe são enviadas saudações no final. Paulo chegou em Roma em 60DC e não é se menciona nenhum contato seu com Pedro nem nas epistolas nem no livro de Atos. Em nenhuma das cartas que Paulo escreveu de pois de sua chegada a Roma (Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom) faz menção de que Pedro estivesse lá. Se Pedro realmente esteve lá foi depois de todos estes acontecimentos.

Vemos então que o evangelho chegou a Roma bem antes de Paulo ou de Pedro. Porém estes dois apóstolos tiveram grande importância para o surgimento da igreja romana. Pedro foi a figura principal na obra que o Espírito Santo operou em Jerusalém no dia de Pentecostes, de onde partiram os primeiros cristãos para Roma. Paulo, por sua vez, foi o apóstolo que espalhou o evangelho pelo mundo gentílico, contribuindo indiretamente para o crescimento da igreja em Roma até que pudesse estar lá pessoalmente.

Ocasião e Objetivos

A Igreja em Roma foi formada sem a presença de um apóstolo para lhe estabelecer firmemente os fundamentos e como em outras cidades, havia divergências de opiniões quanto a observância da Lei de Moisés, a circuncisão, os costumes pagãos, e outros assuntos. A falta da presença apostólica tornava estas divergências ainda mais complicadas e evidentes.

Depois de voltar a Jerusalém, Paulo planejava evangelizar a Espanha e sua intenção era visitar Roma de passagem (Rm15:23-24). Ele escreveu a carta apresentando os princípios do evangelho visando instruí-los e prepará-los para sua chegada. Ele chegou a cidade três anos depois, mas não como havia planejado. Foi preso em Jerusalém e depois de muitas adversidades foi enviado a Roma para esperar por julgamento.

A carta é a mais completa e clara explanação sobre o evangelho que encontramos no Novo testamento. Mateus, Marcos, Lucas e João narraram a vida e a obra de do Senhor Jesus, seu nascimento, seus milagres, seus ensinamentos, seu sofrimento, sua morte e ressurreição. Mas em Romanos, Paulo nos apresenta a revelação e a aplicação prática desta obra na vida do discípulo. Mostra o evangelho não apenas como boa nova, mas como o poder de Deus para a salvação daquele que tem fé em Jesus. Ele apresenta o Mistério do Evangelho, oculto por séculos, mas revelado nas escritura por ordem do Deus Eterno, para que possamos crer nele e obedecer-lhe.

O objetivo de Romanos é nos ensinar sobre o perdão dos pecados pelo sangue de Cristo, o domínio da carne, a vitória sobre o pecado mediante uma nova vida no Espírito, o poder libertador da cruz, a impossibilidade de vida espiritual pelas obras, a natureza da igreja, a vida no corpo de Cristo e fundamentalmente sobre a fé como principio realizador de tudo que é espiritual.

 

«  INDICE
CAPITULO-2  »